Tradução da entrevista “Não como as pessoas se movem, mas o que move as pessoas”, feita por Jochen Schimidt a Pina Bausch

 (Esta entrevista foi realizada em 1978, logo antes da estréia de Kontakthof ). 

“Não como as pessoas se movem, mas o que move as pessoas” 

Schimidt - Pina Bausch, quando você deixou o Folkwang Dance Institute em 1973 e veio para Wuppertal, você disse que estava com medo de ser devorada pelo maquinário do teatro. Você ainda tem esse sentimento hoje em dia? 

Bausch - As coisas são muito diferentes hoje em dia do que eu tinha imaginado que elas seriam. Naqueles dias eu achava que não seria possível fazer nada pessoal. Imaginei uma rotina e regras e tudo o que isso envolve. Eu pensava que o teatro teria que seguir da maneira usual. Eu estava com muito medo disso naqueles dias. 

Schimidt - E do que você tem medo hoje em dia? 

Bausch – No momento... bem, talvez eu esteja um pouco apavorada pela situação em que me encontro, em que não tenho tempo de dizer ‘Será que eu não posso descansar em algum lugar por duas semanas?’ Não falo de feriados, simplesmente para relaxar, para sair dessa pressão e dessa carga por um momento. Isso nunca para... Algumas vezes eu penso: por quanto tempo vou seguir dessa forma?..., mas o problema toma conta de si mesmo normalmente. Se as coisas estão te dando prazer, se elas são divertidas – falo do trabalho em geral – então você..., qual a palavra de novo?... você se regenera por si mesmo. É agradável num certo sentido... sim, tem sido agradável. Realmente estou surpresa de ter tanta energia. De onde mais poderia vir? 

Schimidt – Você poderia dizer quantas horas você trabalha por semana? 

Bausch - Ninguém poderia contar, porque... bem, ninguém conseguiria dividir isso. Na realidade..., na realidade, estou sempre trabalhando. Toda hora é uma hora de trabalho e também não é. Depende do que você quer dizer com a palavra. 

Schimidt – É uma cobrança para você, o fato de que o público e os críticos agora têm uma grande expectativa em relação ao seu trabalho? 

Bausch – Não sei. Talvez isso nunca tenha mudado. Na realidade o sentimento sempre foi o mesmo. Sempre vem um momento em que se está tão incerto com o que se fez, porque é necessário distância – e depois tem esse medo que sempre está lá e sempre esteve. E não adianta dizer ‘Sim, isso vai funcionar. Eu fiz outras coisas antes’. O medo continua o mesmo. 

Schimidt – Você acha que este medo entra na peça como tema?

Bausch – Não, penso que não. 

Schimidt – Você tem temas? Temas específicos? Ou isso muda? 

Bausch – Bem, poderia dizer que eles se movem como num círculo. São sempre as mesmas coisas ou coisas parecidas. Na realidade, os temas sempre têm a ver com relacionamento homem-mulher, a maneira como nos comportamos ou nosso desejo ou nossa incapacidade, apenas, às vezes, as cores mudam. Eu já observei isso. Hoje em dia, sempre acho coisas supostamente alegres bem mais tristes. De alguma maneira, eu mudei bastante, também. 

Schimidt – Você disse uma vez que basicamente não está interessada em como as pessoas se movem, e sim no que move as pessoas. Como uma pessoa que pensa dessa maneira vem a estar na dança-teatro?

Bausch – Bem, por que fazemos isso? Em primeiro lugar, por que dançamos? Existe um sério perigo no jeito como as coisas estão se desenvolvendo no momento e como vêm se desenvolvendo nos últimos anos. Tudo virou rotina e ninguém mais sabe por que está usando determinados movimentos. Tudo o que fica é um estranho tipo de vaidade que está sendo tirada das pessoas agora. E eu acredito que devemos estar perto um do outro novamente. 

Schimidt – Você diz ‘nós’, você quer dizer dança, coreografia? 

Bausch – Sim, e os bailarinos também. 

Schimidt – De onde você vem e como você começou a dançar? 

Bausch – Meu pai administrava uma casa pública e, no começo, fui levada a uma escola de dança clássica para crianças. 

Schimidt – Isso quer dizer que você na realidade começou aprendendo balé ao invés de ter visto o balé sendo dançado em algum lugar, o que deve ter sido uma experiência decisiva para você. 

Bausch – Sim, eu nunca tinha visto nenhum balé antes. 

Schimidt – E você gostou de dançar desde o começo? 

Bausch – Bem, fui em frente e tentava fazer o que os outros estavam fazendo. Eu me lembro de que nós tínhamos que deitar em nossos próprios estômagos e tocar nossas cabeças com nossas pernas, e depois houve esta mulher que disse: “Ela é uma verdadeira contorcionista!”. Isso parece muito estúpido agora, mas de alguma maneira eu estava extremamente satisfeita que alguém tivesse me elogiado. Quando seu pai tem uma casa pública, você está sempre seguindo de lado, basicamente cada um é sempre por si mesmo. Você também não tem uma vida familiar. Eu estava sempre acordada até meia-noite ou uma da manhã, ou sentada debaixo da mesa em algum lugar na casa pública. Nós nunca comíamos juntos também. Essa é a razão por que eu nunca tive nenhum... Meus pais nunca tiveram tempo para cuidar muito de mim. 

Schimidt – Nós estamos ainda longe da pequena garota realmente tomando a decisão de que quer se tornar uma bailarina. 

Bausch – Ah, não foi assim mesmo. Eu simplesmente segui em frente e, depois, eles começaram a me colocar em alguns papéis infantis, a ascensorista em alguma opereta, ou oh, eu não sei... a moura no harém que tinha que abandonar o leque ou a garota do jornal. Coisas assim. E eu estava sempre extremamente assustada. 

Schimidt – Mas você ainda não tinha planos de trabalhar no teatro naquele momento? 

Bausch – Eu realmente não pensava nisso. Foi provavelmente uma coisa que simplesmente aconteceu. Eu estava sempre com medo, com muito medo de fazer algo, mas eu gostava muito. E na época em que estava pronta para deixar a escola, que era quando realmente se começava a pensar ou se tinha que pensar sobre o que se iria fazer - porque sabíamos que a escola tinha acabado – naquele tempo isso estava basicamente claro.

Schimidt – Então você foi direto da escola para a Folkwang Hochschule? Ou houve um período entre?

Bausch – Isso foi basicamente o que eu fiz. Fui para a Folkwang. 

Schimidt – E quando foi que a bailarina se tornou coreógrafa? 

Bausch – Naqueles dias na Folkwang, eles tinham um grande interesse em – do que eles chamavam, então? – em classes de improvisação. Muito mais que hoje em dia... Mas não eram classes de improvisação... Nós fazíamos bastante trabalho de composição, trabalhávamos em umas poucas pequenas danças e peças de estudo. De qualquer maneira, eu era uma das estudantes mais ativas nesse sentido. Mas não aconteceu até eu retornar da América e achar que não tinha nada realmente acontecendo no grupo no qual estava, e eu estava me sentindo muito insatisfeita como bailarina... Eu queria me expressar de uma maneira completamente diferente, mas nós não tínhamos a oportunidade. Nós não tínhamos muito o que fazer, também. Não havia nada novo acontecendo e, na realidade, foi a frustração que me fez pensar em talvez tentar fazer alguma coisa por mim mesma. Mas não era porque eu queria coreografar. A única razão era porque eu queria dançar. Sim, a razão de eu querer fazer alguma coisa por mim mesma foi, simplesmente, porque queria dançar.

Schimidt – Algo que você brevemente mencionou: América. Você estudou dança por muitos anos em Nova York. Este episódio na sua vida foi sem nenhum significado real ou foi importante para seu desenvolvimento? 

Bausch – Penso que foi muito importante para mim. O mero fato de ter vivido numa cidade como aquela foi muito importante para mim. As pessoas, a cidade – que para mim incorpora alguma coisa de ‘hoje’ e onde tudo é literalmente misturado, seja em nacionalidade, interesses ou coisas de moda – tudo muito próximo. De alguma maneira, achei isso incrivelmente importante. 

Schimidt – Mas você não gostaria de viver lá agora?

Bausch – Eu me relaciono muito fortemente com Nova York. Você vê, quando penso sobre Nova York, tenho esse tipo de sentimento que é normalmente totalmente estranho para mim de outro modo, é um pouco como se fosse minha casa... saudade de casa, em outras palavras. É muito estranho. 

Schimidt – Pode-se basicamente pensar em você como uma criança do interior. Pina Bausch sem o ‘Bergishes Land’ ou sem o ‘Ruhrgebiet’, sem Essen ou Wuppertal – pode-se de alguma maneira sentir que isso seria impossível. Você pode se imaginar, Pina Bausch, como uma diretora de balé na Bavarian State Opera em Munique?

Bausch – Se tivesse a chance, ou se alguém achasse certo que eu fosse para um teatro particular, seja em Munique ou em qualquer outro lugar, então, realmente seria simplesmente uma questão de quão fortemente eu sinto que é certo para mim. Mas só poderia fazer o que sinto que deveria fazer, eu penso. Se alguém dissesse, ‘Você pode vir trabalhar aqui, mas você tem que fazer isso, isso e isso”, então penso que eu não seria capaz de ir. 

Schimidt – Seria impossível para você fazer uma produção tradicional da Bela Adormecida, por exemplo? 

Bausch – Não iria querer fazer.

Schimit – Você disse que, basicamente, você vive 24 horas por dia para coreografia e dança... 

Bausch – Bem, não estou tão certa quanto à coreografia... 

Schimidt – Tudo bem, mas isso te ocupa todo o dia. Como isso se traduz na prática? Como você prepara uma peça? 

Bausch – Eu vivo em função disso. É assim que as coisas são. Sim, é assim que na realidade isso acontece também... Quando nós estamos trabalhando em uma peça, não tenho absolutamente tempo para pensar sobre a próxima peça, estou simplesmente impossibilitada de dividir meu tempo... Isso é impossível. Primeiro tenho que finalizar o que estou fazendo e depois ir direto para o próximo. Posso sentir o que estou procurando, mas sempre estou impossibilitada de dizer racionalmente o que é. Não posso colocar em palavras, talvez nem mesmo queira colocar em palavras algumas vezes. Algumas vezes, você chega às coisas totalmente por acidente, alguma coisa que você lê. Mas, basicamente, eu procuro por elas. 

Schimidt – E de onde o material vem, na maior parte? 

Bausch – O material que aparece no palco? Oh, é muito mais tarde no processo. Eu sempre fico em pânico antes de começar uma peça. Realmente fico com muito medo de começar, de dizer categoricamente ‘tudo bem, nós vamos ensaiar hoje’. E eu evito. Vou adiando o tanto que posso e depois começo pelos cantos, pelas beiradas. Algumas vezes, posso chegar para um dos bailarinos e dizer ‘Nós podemos tentar algo?’ Ou falo com eles sobre isso um pouco. Mas, basicamente, acho incrivelmente difícil dar o primeiro passo, porque... porque sei que eles, os bailarinos, vão esperar que eu diga a eles o que quero. E então fico em pânico. Fico apavorada de ter que falar pra eles, porque o que eu tenho é sempre muito vago. É verdade, eu sei que posso sempre dizer ‘Aqui estou eu – tem uma ou duas coisas particulares na minha cabeça no momento’, e devo mesmo achar algum tipo de palavra para descrever isso e, então vou dizer ‘Certo, bem, aqui é de onde nós vamos começar. Vamos ver aonde isso nos leva’. É bom que eu consiga mesmo colocar isso em palavras hoje em dia. Dois anos antes eu não conseguia. Simplesmente não tinha esse tipo de palavras. Achava tão difícil, porque tudo que alguém dizia, de repente estava... bem, estava-se tão preso. Então, de repente, você irá dizer algo e esperar que a outra pessoa pegue a chave do mistério, porque o que eu queria dizer era, na realidade, outra coisa. Tudo o que eu dissesse seria simplesmente uma ajuda para me fazer entendida. Algumas vezes era simplesmente uma ideia ou um pensamento... De repente tive o sentimento de que se falasse muito, seria como se fosse sujar isso. Eu não posso dizer por que é assim. E depois, sempre tenho esse sentimento de que eu devo proteger isso. Devo falar ao redor, de forma que fique intocado, pelo menos para começar. Basicamente, quero que o grupo use a sua própria imaginação. Nós ainda não estamos fazendo o que realmente nós queremos fazer. 

Schimidt – E o que vocês querem realmente fazer?

Bausch – Bem, sinto que nós estamos ainda contendo algo. É completamente natural, porque mais que tudo, nós queremos ser amados. Penso que tem algo que te segura em algum lugar. Você pensa que tem esse ponto e que se você for além, então você não poderá dizer exatamente aonde isso o irá levar.

Schimidt – Eu sempre senti que esta necessidade de ser amado era, de fato, algo que fez você querer produzir e não uma coisa que te continha.

Bausch – Certo, certo..., mas, então, são ambos. Porque isto é um processo, você vê. O desejo de ser amado, este é definitivamente nosso motor. Eu não sei. Poderia ser diferente se eu estivesse por minha conta, mas tem sempre outras pessoas envolvidas. Não quero forçar as pessoas e dizer ‘Agora você tem que fazer isso’. O que eu gostaria que os outros no grupo sentissem é que as coisas que me ocupam são também importantes para eles. Talvez isso seja algo que eu não possa fazer no momento, porque nós não atingimos esse estágio como grupo ainda. 

Schimidt – Você mencionou a palavra processo. Processo significa desenvolvimento. Você mesma se desenvolveu consideravelmente. Por exemplo, você desenvolveu mais e mais em relação à forma da dança clássica e da moderna no que diz respeito ao drama, embora eu saiba que isto é somente uma descrição muito superficial do processo. Você tem alguma ideia de aonde o processo está conduzindo você ou aonde você mesma está indo? Você poderia imaginar se retirando da dança completamente e se tornando uma diretora teatral, por exemplo? 

Bausch – Isto é possível. Eu não sei. Estou sempre tentando. Continuo desesperadamente tentando dançar. Estou sempre esperando encontrar novas maneiras de me relacionar com o movimento. Eu não posso continuar trabalhando de um jeito prévio. Seria como repetir algo, estranho. 

Schimit – Poderia ser também que o movimento simplesmente não é mais suficiente para o que você quer dizer – que você também precisa de palavras? 

Bausch – Palavras? Não posso dizer exatamente. Mas, então novamente, ao contrário... pode ser um movimento. É simplesmente uma questão de quando é dança e quando não é. Quando é que começa? Quando nós chamamos de dança? Tem, de fato, alguma coisa a ver com consciência corporal, e o jeito que nós formamos as coisas. Mas, então, não precisaria ter este tipo de forma estética. Pode ter uma forma totalmente diferente e ainda ser dança. Basicamente, alguém quer dizer alguma coisa que não pode ser dita, então, o que se faz é um poema onde se possa sentir o significado. Então, palavras, eu penso, são um meio – um meio para um fim. Mas palavras não são o verdadeiro objetivo. 

Schimidt – O que você descreveria como o verdadeiro objetivo? Comunicação, ou arte? 

Bausch – Não sei.... Não sei.... 


Ruby Washington/The New York Times

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